Um Elogio atrasado no timing, mas sempre a tempo na vida!
A Mafalda, que como eu também ainda acredita no 'amor puro'
(e a todos aqueles que secretamente acreditam nele também ;))
Ha coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas.Tenho uma coisa para dizer,mas não sei como dizê-la. Muito do que se segue pode ser por isso incompreensivel. A culpa é minha.O que for incompreensivel não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu proprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que eu quero fazer é um elogio do amor puro.
Parece que ja ninguém se apaixona de verdade. Ja ninguém aceita amar sem uma razão. Teixeira de Pascoaes meteu-se num navio para ir atras de uma rapariga inglesa com quem nunca tinha falado. Estava apaixonado e foi para Liverpool. Quando finalmente conseguiu falar com ela, arrependeu-se.
Quem é que hoje é capaz de se apaixonar assim? Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão pratica. Porque da jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Porque se dão bem ou não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas, das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à minima merdinha entram logo em 'dialogo'. O amor passou a ser passivel de ser combinado. Os amantes tornam-se socios. Reunem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-socio-bio-ecologica da camaradagem. A paixão que devia ser desmedida é na medida do possivel. O amor tornou-se uma questão pratica. O resultado é que aspessoas em vez de se apaixonarem de verdade, ficam 'praticamente' apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estupido, do amor doente, do unico amor verdadeiro que ha, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas e cantina, malta do 'ta bem, tudo bem', tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, babanoides, borrabotas, matadores do romance, romanticidas. Ja ninguém se apaixona? Ja ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim da tristeza, o desequilibrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alivio, o repouso, o intervalo, a pancadinhas nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "da la um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Por onde quer que se olheja não se vê romance, gritaria, maluqice, facdo, abraços e flores. O amor fechou a loja. Foi trespassado ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. E essa a beleza. E esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. E uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo de ainda apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa a vida é outra. As vezes a vida mata o amor. A "vidinha" é umaconvivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um principio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para se perceber. O amor é o estado de quem sente. O amor é a nossa alma. E a nossa alma a desatar. A desatar a correr atras do que não se sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. E por isso que a ilusão é necessaria. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente, e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, muito dificil, por muito desesperante. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia, e durante a vida, quando não esta la quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. E sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa e o amor é outra. A vida dura uma vida inteira, o amor não. So um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.
Miguel Esteves Cardoso, 'Elogio ao amor'
*amem!*

1 comment:
Acreditamos mm! E é por isso que sabemos como sabe bem, bem, bem, bem... ;) Love U xxx
Post a Comment