
Por entre as minhas investigações juridicas e algumas viagens filosoficas, fui positivamente surpreendida com a seguinte reflexão, da autoria de um dos meus mais admirados cosmopolitas de origem lusa. Tomo a liberdade de aqui a transcrever:
''Diz-se que Salazar teve um grande amor. Chamava-se Christine Garnier, uma jornalista francesa que veio a Lisboa para entrevistar Salazar e acabou por passar um Verão na sua companhia. Ao que parece Salazar ter-lhe-a enviado varios e luxuosos presentes (afinal era capaz de gastar dinheiro) e mantido uma correspondência romantica que, no entanto, nunca passou do amor platonico. Se calhar o amor à patria não era compativel com o amor a uma mulher.
Do Verão que Christine Garnier passou com Salazar nasceu um livro escrito pela jornalista: As minhas férias com Salazar. Nesse livro, Christine conta como ficou surpreendida com o conhecimento e actualização de Salazar quanto ao que se passava no mundo. Ai estava um ditador que não saia de Portugal, mas tinha lido tudo, encontrando-se a par dos mais recentes debates intelectuais. Salazar parecia um cosmopolita e, no entanto, todos sabemos que a marcaque nos deixou foi de provincianismo. Como é possivel que um homem tãointelectualmente formado fosse tão provinciano? Salazar julgava poder conhecer o mundo sem sair da sua propria cadeira. Era um cosmopolita de sofa.
Salazar queria conhecer o mundo, mas sem estar disposto a abraça-lo. A curiosidade de Salazar nunca se estendeu aos seus proprios preconceitos e as pré-compreensões. Ele conhecia tudo, mas não aceitava ser desafiado por nada. Quando o conhecimento tem lugar de forma acritica, ou promove a submissao ou reforça a presunção e a arrogância. Em vez de nos desafiar e melhorar, torna-se meramente instrumental ao reforço das nossas crenças anteriores.Quer promover o nosso cinismo (partimos para o conhecimento do que é diferente apenas para provar o que tem de mau), quersustentar a nossa falsa autoridade (levando-nos a presumir que sabemos tudo).
Os verdadeiros cosmopolitas não querem apenas conhecer o mundo, querem interagir com ele. Portugal, ao contrario, tem uma longa tradição de cosmopolitas de sofa. Uma das nossas marcas é precisamentede unir cosmopolitanismo com provincianismo. Isto manifesta-se, no entanto, de duas formas totalmente opostas.
Uma forma de provincianismo cosmopolita exprime-se no fascinio por tudo o que é estrangeiro. Se ha algo que boa parte das nossas elites intelectuais e empresariais partilham é a concentração na actividade de importação: uns importam conceitos de negocios, outros importam teorias e ideias. O nosso discurso intelectual parece muitas vezes reduzido ao franchising de ideias (em que os principais fornecedores tanto podem ser o Le Monde como a New Yorker). Aisto junta-se a obsessão com o que os outros pensam de nos. Seja uma equipa de futebol ou um politico, não ha visita ao estrangeiro que não seja acompanhada por um artigo nos jornais sobre o que eles (os estrangeiros) dizem e pensam de nos. Isto até seria positivo se através da nossa imagem nos outros procurassemos saber algo mais sobre nos. Na verdade, lemos os outros apenas para saber oque julgam de nos. E um pouco como aquele amante que se apaixona não para amar, mas apenas para ser amado.
Mas ha outra forma, igualmente comum e no entanto totalmente oposta, de provincianismo cosmopolita. E a recusa de tudo o que vem de fora. O conhecimento do mundo serve apenas para nos ameaçar. As ideias dos outros valemquando são importadas por nos, mas os outros não valem nada. Neste caso a autoridade do cosmopolita de sofa serve apenas para proteger a sua exclusividade: o ser detentor de toda a verdade. Eis o "cosmopolita" Salazar: o conhecimento do mundo apenas servia para lhe dar razão ao "proteger-nos" dele. Neste caso, é como o amante que apenas se apaixona pela procura da fidelidade.
O nosso equivoco é pensarmos que somos um pais aberto ao mundo so porque somos um pais de viajantes. Não basta viajar para interagir com o mundo. Ha muita gente que viaja e não sai do seu "sofa". Vicente Verdu dizia que ha dois tipos de viajantes: os que viajam por viajar e os que viajam por ter viajado. Os primeiros querem usufruir dos lugares e da viagem. Os segundos procuram historias para contar. Mas ha um terceiro tipo: os que viajam sem querer sair do seu lugar. Os que chegam ao hotel e ficam no quarto a ver a CNN e a ler o Financial Times. Do tipo daqueles portugueses que vão a uma cidade estrangeira e procuram logo um restaurante português para comer. O simples facto de viajarmos não nos faz estar atentos ao mundo e interagir com ele.
O verdadeiro cosmopolita é aquele que se deixa desafiar pelo mundo. Que aceita confrontar-se com outras realidades e ideias sem as querer imediatamente copiar ou rejeitar. Aquele que quer ser um participante do mundo e não um mero espectador. Alguém que sabe que é confrontando-se com a diferença que constroi a sua verdadeira identidade.''
Miguel Poiares Maduro
(Advogado Geral no TJCE,
Professor no Instituto Universitario Europeu e no Colégio da Europa)
in DN, 10 Novembro 2004

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